Caso clínico do Pequeno Hans
No caso clínico do Pequeno Hans, Freud pontua o fato de que a criança,
de alguma forma, adoece quando perde a capacidade filosófica de fazer perguntas
sobre as coisas mais elementares da vida. Clarice Lispector, por sua vez, tem a
mestria de nos devolver este estranhamento em relação aos objetos do cotidiano
- restituindo no leitor - a curiosidade inaugural da primeira infância, que se
perde no processo de amadurecimento. O olhar de estranhamento metafísico
daquela que se depara com o ovo sobre a mesa é, por assim dizer, consequência
desse espanto que a realidade pode nos provocar. Entre aquilo que se vê e
aquilo que se supõe saber sobre o objeto, reside um abismo, a partir do qual
torna-se possível criar. A capacidade que Clarice tem, a títuto de exemplo, de
se desfamiliarizar de um "Louva-a-deus", ou até mesmo de uma
"galinha", e nos lançar para o interior mais profundo do estranho que
nos constitui, colabora sobremaneira para minha escuta daqueles pacientes que
apresentam um discurso mecanizado, descritivo e desprovido de estofo
fantasístico. Como bem nos legou Freud, a formação do analista passa,
indiscutivelmente, também pela literatura.

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