Encontro
Ela estava no banco daquele casebre na aldeia. Uma das primeiras que avistei. Eu, aflita para chegar no rio guardador de presságios e passados. Ofegante, sem me dar conta de pra onde ia minha palavra cansada, apressada, urgente nas emergências de mim:
- O Rio.
Silêncio letárgico. Nenhum músculo mexido. Contração de espada. Nunca que tinha visto a indiferença muscular neste estágio de composição. Foi das primeiras pessoas que avistei. Tinha uns dezoito anos. Rosto declinado ao chão, como se quisesse se enterrar. Virar terra. Depois pó. E finalmente, nada. Não me contive. Contrações que nem sei. Vieram. Depois as expansões. Agachei até que meu rosto ficasse abaixo do rosto dela.
Tirei os óculos:
- Eu sei onde é o Rio. Não sei onde é você. Mas sei onde somos os quatro: eu, você, o Rio e a terceira margem.
Ela hesitou com bravura velha. Olhou feio. Eu insisti no fito. Sua dureza não suportou a densidade do que os olhos podem ver. E riu inocente pra mim. Couraça dissipada. Ri de volta:
- Ei, eu sei tudo dos invadidos.
E ela entendeu com o espírito. Sem uso da razão ou de um
coração machucado.
Expliquei que alguns fazem silêncio com os ecos. Outros com a ausência dos verbos. E fui, assim, entrecortando dizeres medidos, balbuciando oficinas de calar até chegar nos escondidos. Teci cordas e mais cordas de desacorrentar-nos uma ante a outra.
E antes de sair, eu, triunfante, correndo até o rio, levantei os braços: estes acrobáticos pelo ensejo dos vinhos:
- E eu? Eu? Oras. Deus, eu faço silêncio gritando. Jorrando palavras para gargantas desérticas. Almas áridas. Maldades disfarçadas. Compaixões emuradas. Eu faço silêncio invadindo silêncios.
Depois do esparramo dos excessos, fiz o que sei fazer: FUI.
Comentários
Postar um comentário