Gana paterna





Meu pai não cessava suas tentativas de se estabilizar e embora eu me rebelasse pela pouca idade contra os estados de constantes transições,  sentia no mais fundo de mim  uma compulsão de admiração pelas investidas insistentes que ele tinha de tentar se acertar.
Dentro dos meus limites entendia que arriscar era um jeito de desafiar a natureza estática dos acomodados. Ele insistia nos esforços porque era um homem forte. Olhando-o podia me dar conta da  espessa cintilação que agitava sua personalidade inquieta e atuante no mundo em que vivia. Pelas muralhas do tempo articulo a figura paterna com a do homem inquieto e de propósitos colossais. Vou enfileirando imagens à medida que compartilho com certa alegria as cores fortes que me vêm à memória enquanto narro estes momentos. 
Sua busca forçada pela sua própria segurança e pelo bem estar de sua família, impulsionou meu  pai a abrir uma fábrica de calçados artesanal.  Eu, nesta fase, observava as fórmulas paternas para construir uma vida melhor sem criar confrontos entre elas e meus desejos íntimos de ir aqui ou ali, fazer isto ou aquilo. Quando jovem recebemos a atitude de nossos pais como pequenos choques revigorantes. Reconheço nisto o teor das linhas divinas que nos convoca a honrar nossos pais. Neste período da vida este imperativo é praticamente irrevogável. 
Aguilhoando os detalhes recapitulatórios deste momento  encontro a feliz  lembrança de que  esta fábrica de calçados representou  o trampolim para ensejar uma vida melhor.  Entretanto o destino que agia fora dos domínios de nossa casa não era o único a modelar  nossa história. O cataclisma político  vinha orientado por forças contrárias  capazes de  alterar o âmbito familiar que  presumíamos, até então,  estruturado suficiente para confrontar os acontecimentos externos. Entretanto, adverso a isto,   viriam influências de um cenário político delineado pela nova campanha política  que trouxe à baila duas forças antagônicas. A primeira representada pela UDN, anti-Getúlio, na pessoa de Renato Cincurá de Andrade para Prefeito e Juracy Magalhães para Governador da Bahia. A UDN era  um partido conservador orientado pela oposição frontal às políticas populistas de Getúlio e pelos moldes do liberalismo clássico 
Neste  trecho  a trilha particular  de nossa família  corre paralela aos caminhos e acontecimentos inerentes àquela   década agitada  pela  polêmica figura  de Getúlio Vargas.
Meu pai embora não gostasse de política se afeiçoava ao representante da UDN da cidade Uberaba, em Minas Gerais. Além disto, o período de campanha eleitoral sempre representou um período promissor para movimentar a economia de pequenos e grandes empresários. Em vista disto,  os fabricantes, a exemplo de meu pai,  e os prestadores  de serviços no vislumbre de fomentar seus negócios, aproveitaram para oferecer seus préstimos  e produtos.   
Os candidatos com o propósito de angariar votos, encomendaram centenas de pares de sapatos com meu pai para  distribuírem entre seus eleitores. Contudo, meu pai, pouco precavido e desabilitado nas corrupções e desonras que cerceiam a política não exigiu pagamento antecipado. O desfecho do contrato veio acompanhado de furiosas desordens financeiras, pois os candidatos não honraram o compromisso de saldar suas dívidas com a fábrica de sapatos. Com isto, sequelas econômicas desastrosas recaíram sobre os negócios da família e, por fim, meu pai drasticamente endividado não conseguiu se reestruturar a tempo de evitar a falência. Mas apesar da dissolução da fábrica e do gigantesco impacto que isto causara em todos nós, meu pai era munido de rara persistência laboriosa. Era forte sua devoção ao trabalho e aptidão para persistir no alcance de suas quimeras. Tais potências de caráter  desempenharam   papel fundamental  na  nossa saga familiar.  Das minhas recordações mais distantes de meu pai esta é daquelas que não desvaneceram da memória.  Disto trouxe uma noção de afinco, embora reconheça que  a velocidade com que as coisas mudavam inspirassem instabilidade. Mas, neste momento da história  está inscrita uma   tenacidade que empurrava as pessoas para o progresso. Via-se que pairava na cerviz dos homens  a aura das transformações.
O cenário baiano dava-nos indícios deste tempo e enfatizava com clareza  os aspectos evolutivos. A Bahia pretendia adentrar as portas do progresso por meio do êxodo ao sul do país e imprimiria este ritmo àqueles que possuíam, como meu pai, a disposição para o trabalho, o apetite empreendedor e a ambição de realizar. Era mais que desejo de riqueza aquilo que acometia os homens desta época, também existia uma gana, uma espécie de excitamento pela exploração e alargamento de horizontes. 
Logo após a fábrica de calçados ir à bancarrota, meu pai tomado por esta pulsão extrínseca e também por suas necessidades intrínsecas, decidiu investir na abertura de um armarinho, que, por desventura, também não logrou êxito.   Meu pai era, de fato, um homem muito ativo, e eu via suas investidas sob uma lente de profunda  de admiração.  
Otávio, comerciante de  Iaçu, perseverante em seus intentos e que se punha com firmeza nos propósitos comerciais, teve a engenhosa iniciativa  de pedir que meu pai  fabricasse  malas de couro para que  fossem vendidas em São Paulo.  A esse respeito recordo de uma visita  do Sr Otávio à nossa casa. Pelos lampejos da memória não conseguiria dar uma descrição exata dos seus traços, mas era um homem que inspirava determinação e punhos fortes. 
É também verdade que na  evocação desta lembrança  me dei conta de que foi  exatamente no topo do decênio dos quarenta,  quando os paus de arara começaram levar centenas de baianos para a capital paulista, que nos  mudamos para a cidade de Paraguassu.   Lá meu pai fabricou quatrocentas malas de couro, conforme tinha acertado com seu novo parceiro de rumo, o  Sr. Otávio.  Amiúde, minha memória reteve relances desta passagem, mas sobre  pontos particulares escapam-me imagens pormenorizadas.  Restaram decerto alguns indícios de passado nas flutuações das lembranças, mas sem grande consistência.  
Meu pai mudou-se sozinho para São Paulo em busca de satisfazer as necessidades materiais da família.  E minha mãe que raramente punha obstáculos às decisões do marido complementava a renda fazendo doces para vender na estação de trem.  Futuramente tentei compreender o sentido antagônico que tornava esse aparte uma forma união e a distância um princípio de aproximação.  Entretanto isto se acha ocultado naquelas perguntas sutis que ficam escondidas e a gente nunca responde.  
Não ficamos desamparados com a ida do meu pai, já que ficou ao encargo do armazém do Sr Otávio fornecer-nos  gêneros alimentícios para nossa família.
 


  


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